Deixando de lado o clichê de que a vida é um eterno aprendizado, no caminho que escolhi como ator/diretor/pesquisador teatral essa máxima de aprender sempre é uma verdade incontestável. Cada novo processo requer uma nova pesquisa, um novo método para encontrar-se novos caminhos. É como se a cada nova montagem, tudo começasse do zero novamente, onde devemos (re)visitar os conceitos, técnicas e as diferentes possibilidades cênicas que fomos descobrindo ao longo do nosso percurso, que damos o nome de carreira. Mas para isso, é necessário, ao modo como pressupõe Eugenio Barba, aprender a aprender.
Apesar de parecer um simples jogo de palavras, aprender a aprender quer dizer muito sobre como nos colocamos disponíveis para realmente descobrir coisas novas, sairmos da condição de arrogância do “já fiz isso”, “isso eu já sei”, ou mesmo do “já estou velho para isso”. A curiosidade deve ser um poço sem fundo, assim como nosso corpo e mente para a multiplicidade de personagens, peças e ações que necessitamos fazer ao longo de nossa carreira. E nesse processo de “ir para poder voltar”, onde vamos revisitando os diferentes exercícios, percebemos também a infinidade de pontos de vistas que mudam todo o conceito do que acreditamos já ter aprendido. Nesse processo artístico em que a busca da liberdade é uma causa constante, pensar em “aprender” alguma coisa parece uma contradição. O conhecimento é um pássaro selvagem indomável, que muda de direção à todo instante, numa inconstância que faz ruir todas as certezas estabelecidas, porque o Teatro, assim como a vida, é um organismo vivo próprio em constante transformação, e nós, atores, títeres dessa natureza cênica, somos partes desse tecido vivo em constante renovação (ou não). Aprender, incluindo aí aprender a aprender, é uma necessidade vital de quem é artista de Teatro.
Na Oops!.., estabelecemos como uma das metas do nosso processo, como método de trabalho, que sempre devemos buscar incessantemente a troca de experiências e conhecimento que nos permita fluir e respirar, rever ou reafirmar os percursos que estamos percorrendo. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, já diria o poeta que é Pessoa, e esse mesmo poeta emendou em um outro momento: “Viver não é necessário. O que é necessário é criar (…) nem que para isso tenha de ser meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo”, esse fogo que é o processo de criação artística. Assim, estamos todos, de alguma maneira, separados por alguns instantes em nossos distintos processos de “aprender a aprender”, vivendo novas experiências para compartilhá-las uns com os outros e depois com o nosso mestre principal, que é o público, aquele que realmente nos ilumina com sua reação se estamos trilhando o caminho tortuoso que estamos dizendo trilhar.
Assim como na ética dos médicos, que devem ser médicos em todos os segundos de sua vida e nunca negarem uma ajuda médica a alguém que necessite, o artista de Teatro deve estar com seus sentidos e atenção abertos durante todo o tempo, pois é da vida que sacamos as inspirações, é ao longo do dia que preparamos nosso trabalho, sendo a sala de ensaio apenas o lugar para mostrar esse trabalho. E aí temos os nossos mestres em vida: livros, natureza, pessoas, mundo. E em diferentes modos elegemos nossos gurus que irão nos guiar em determinado ponto do processo. Esse guru pode ser um professor, um diretor, nossos pais, a religião ou um animal de estimação. Cada qual em seu momento distinto, nos trazendo as distintas lições para o aprendizado daquele momento.
Um dos meus gurus de todos os dias nesse momento tem o nome de Henrique. Ele me mostra o que é de fato aprender e o que precisa ser feito para aprender. O que é entender a ação física, a consciência corporal, o ritmo e a energia. Ele é um mestre exigente, que sempre reclama quando a execução do exercício não está correta. Uma de suas exigências mais recorrentes é me colocar para cantar. Tenho que cantar frequentemente, coisa que não fazia habitualmente. Ele ainda não exige uma afinação de minha parte, mas sempre solicita um repertório cada vez maior de músicas e de ritmos, dos mais variados. É necessário cantar com o corpo também, fazendo a música vibrar em cada ação, trazendo na partitura de ações físicas o encadeamento sonoro produzido pelas canções. Quando acredita que alcancei um registro interessante, ele reage positivamente, o que me faz entender que é preciso guardar este registro. Será necessário utilizá-lo depois, em outro jogo, outra cena. Às vezes preciso improvisar, a partir de uma melodia, canções que são criadas a partir das situações que são dadas.
No trabalho corporal, geralmente trabalhamos a partir de contato improvisação, onde vamos conhecendo, através da relação com o outro, o nosso próprio corpo, nossos movimentos e possibilidades, variando ritmos, energias e os planos de ação. Sua exigência faz com que eu perceba que no jogo não há espaço para descansar, que para cada ação é preciso empenhar distintas qualidades de energia, e que ela deve ser realizada com a presença do corpo por inteiro. É preciso descobrir que há sempre algo novo, dia após dia. Que há algo de novo no controle da coordenação motora, da força com que empenhamos cada gesto. E que isso é e pode ser muito divertido. Sua exigência me obriga a reinventar esses gestos, redescobrindo, através de mudrás ou de posturas, o prazer de descobrir o próprio corpo e a conquista diária de superar os limites dos dias anteriores. É preciso descobrir o novo a cada novo instante da vida. Ele está lá, e o sorriso, a felicidade e a graça e o novo saber são as recompensas pelo exaustivo trabalho.
Há pouco tempo iniciamos um trabalho em que introduzimos os objetos na relação com o espaço também. Primeiro vamos explorando os objetos, descobrindo suas funcionalidades primordiais, suas formas, cores, cheiros, sabores. Vamos sentindo o objeto com cada sentido do corpo. Depois, com a mesma intensidade do trabalho com a música e o corpo, temos que fazer tudo junto com os objetos para resignificar sua utilização. Os objetos podem ter múltiplas funcionalidades e significados, dependendo da ação que se executa. Para explorar a vocalidade, trabalhamos com glamerots, sons guturais e evitamos uma linguagem direta, com a utilização das palavras. O que importa não é o significado das palavras, mas sua sonoridade. O que importa é a intenção, a maneira como está sendo dita. Quando falamos, menos de 20% das palavras são apreendidas pelo ouvinte. É necessário se fazer entendido, sentido por todos os sentidos, e fazer de verdade com todo o corpo, utilizando a respiração de maneira orgânica, e nessa mesma ação vocal, empenhando todo o corpo para gerá-la.
Fazemos isso diariamente, e é preciso transformar e encontrar novos e novos caminhos. Novos jogos. Nesse momento tenho outros mestres juntos, que me ensinam muitas coisas. Há uma que está comigo há 12 anos, com a qual aprendi inúmeras coisas, das quais um sentido para ir, para continuar a experimentar, para criar. Com ela estamos experimentando a vivenciar a experiência de rejuvenescer com o passar do tempo. Ela me faz ver diariamente que o jogo vale a pena ser jogado, e que o Teatro é a Arte do encontro, nosso ponto de encontro, ponto de partida, mas nunca de chegada. É preciso ultrapassar as fronteiras do teatro, para encontrar um verdadeiro sentido de existência. Ela é esse impulso. Tenho o diretor com quem estou iniciando um processo criativo para um solo, que também é um desses mestres. Alguns livros também são a presença metafísica dos mestres que estão em outro tempo-espaço. Tem a nostalgia, a saudade e a distância nos fazendo lembrar que a vida também sempre trará lições fundamentais para esse jogo de aprender a aprender. Mas Henrique me coloca frente a um espelho, me obriga a fazer caretas e sons junto com ele, e com um sorriso, me faz compreender que o tempo passa rápido, e que 6 meses é um curto espaço, mas que talvez eles já são uma vida inteira, que transformada dia-a-dia, nos fazem compreender que o infinito fica logo ali.