08nov
Poplicado em: 08/11/2018 Comentários: 0

No ultimo final de semana, tivemos a oportunidade de vivenciar uma experiência interessante: fomos convidados para integrar o evento “La Saleta 24h”, um evento organizado pelo espaço teatral intimista La Saleta, que é coordenado por diferentes grupos teatrais da cidade de Lleida. A proposta do evento é reunir 24 artistas teatrais para realizarem três montagens em 24h; e para isso o grupo é dividido em três outros, através de sorteio, sendo que já estão definidos quem serão os três diretores e os três dramaturgos. Cada grupo tem seis atores. Ao longo da semana, o público enviou distintas propostas de temas, que foram sorteados no primeiro momento do encontro, para que fosse definido o tema que seria o eixo norteador da montagem. E o acaso definiu o seguinte tema: “São viáveis e necessárias as fronteiras atuais?”

Com o tema em mãos, iniciou-se um grande debate sobre o mesmo junto com todos os artistas, que em grande maioria eram espanhóis, com a exceção de nós brasileiros e uma atriz francesa. A língua falada pela maioria era o Catalão, mas foi substituído pelo castelhano, que é o que nós entendemos melhor. Após um debate de aproximadamente 30 minutos com todos, os grupos foram reunir-se para encontrarem o caminho de suas montagens. Os “estrangeiros” por ironia do destino, ficaram em grupos diferentes. Sol esteve na função de atriz. A mim, coube a função de dramaturgia, a de tornar esse tema uma “estória” a ser contada pelos atores.

Depois de reunirem-se com cada grupo, os três dramaturgos se juntaram para contar o que cada grupo definiu como caminho para a construção dramática de seus trabalhos, e com o objetivo de cada qual escolher percursos diferentes para narrarem ou discutirem o tema sob seus pontos de vista. Mais uma vez, também por ironia do destino, cada grupo escolheu falar sobre fronteiras distintas: Um grupo falou sobre as fronteiras espaciais, geográficas; o outro sobre as fronteiras que separam as relações interpessoais e o ultimo sobre as fronteiras que cada indivíduo estabelece para si mesmo. Essa última foi o tema que me coube levar a cabo a dramaticidade. Como ponto comum para cada grupo: o medo. O medo seria o que nos leva a erguer ou definir as fronteiras.

Com o pouco tempo, e a noite e madrugada avançando, não havia um tempo hábil para a construção textual e consequente apreensão deste texto por parte dos atores. O caminho foi a definição de roteiros e cenas elaboradas através de treinos e laboratórios coordenados pela dramaturgia e pela direção, desenhando a encenação que viria a ser apresentada na noite seguinte. A fronteira do idioma e cultural foi suprimida pela conexão cênica que o Teatro permite criar, que nos tira da situação de “forasteiro” e nos coloca na situação de “conterrâneo da ilha flutuante que é o Teatro”.

Ainda sim, discorrer desse tema indo muito além de nossas próprias fronteiras, nos coloca em uma situação completamente nova, nos fazendo enxergar através de um prisma, como o medo pode nos aprisionar e fazer erguer muros inviáveis para nossa condição de ser humano social. Ou ainda, a ilusão de que a transposição de certas linhas (imaginárias ou não) podem nos fazer acreditar que tudo se transforma, apenas porque atravessamos para o outro lado. Devo proteger minhas fronteiras? Devo transgredir minhas fronteiras? Devo permitir ao outro, ao diferente, adentrar o campo da minha fronteira? Sou eu o diferente? Seria a mentira uma fronteira, ou a fronteira uma mentira? A identidade está preservada pela barreira da cultura, ou seria a identidade uma maneira de nos aprisionar?

O artista de teatro é aquela pessoa que sempre está nas pontas do pé, tentando enxergar por cima do muro. Fazer Teatro é estar sempre nessa condição. É necessário enxergar além do medo, do muro, da fronteira. Estar no teatro é ser eternamente imigrante, colocando-se na posição do outro. No Teatro, as fronteiras sempre serão inviáveis, nunca impossíveis. Como artistas, devemos sempre transgredir as fronteiras. Vivemos exatamente no limite, no desconhecido. E por ser diferente, sugerimos a estranheza. Mas qual é a diferença entre nós e vocês?

E no mundo globalizado? Num mundo em que cada vez mais erguemos muros intransponíveis, sejam eles de concreto, geográficos ou metafísicos, estamos sempre criando barreiras para nos proteger do outro, do desconhecido. Criamos barreiras que não nos deixem ser invadidos. Que nos permitam viver no conforto daquilo que cremos conhecer, dominar. Vivemos na liberdade da prisão dos nossos limites. Mas e se as fronteiras não existissem, seríamos invadidos?

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