12nov
Poplicado em: 12/11/2018 Comentários: 0

Neste mês de novembro a aventura chamada Oops!.. completa 18 anos. O grupo alcança sua maioridade. 18 anos. Há 18 anos eu não tinha 18 anos. Naquele tempo, em que aventurei na ideia de criar um grupo de Teatro, eu não tinha a menor ideia do que era um grupo de Teatro. Eu tinha fome de Teatro. Alguns anos antes, quando mal havia entrado na minha adolescência, tinha iniciado minha aventura no universo teatral. Mas sentia que alguma coisa estava deslocada. Não encontrava nos processos que havia participado o alimento necessário para saciar essa fome. Eu precisava de mais. Talvez não fosse fome. Talvez fosse gula. Ou náusea, enjoo. Uma revolta pueril. Estava perdido, com a certeza de saber o caminho certo. Aquela certeza comum dos que, inconsciente de não saber de nada, acreditam ter razão na irracionalidade.

Mas lá estávamos nós, jovens, querendo saber mais sobre isso de não saber de nada. Encontrando os novos antigos mestres, que haviam deixado, em suas canoas de papéis, suas inquietudes, atravessando de margem a margem, as fronteiras do tempo e espaço, para dialogarem com nossos anseios. Angústia. Frustração. No devir do fazer teatral, do estudar, pesquisar e criar, fui descobrindo pouco a pouco, que, antes de qualquer coisa, o Teatro é arte da frustração. Na situação precária em que fazíamos (e fazemos) Teatro, a precariedade é a condição que nos mantém marchando em frente, em busca de construir uma condição mais sólida.

Durante esse tempo, tive a grata e prazerosa experiência de trabalhar com inúmeros outros artistas, de diferentes grupos e localidades. Conterrâneos da ilha flutuante que é o Teatro. Mas com a Oops!.. minha história de vida se confunde , funde, difunde, afunda e emerge. Foi nesse lugar em que busquei entender a verdade. Em que busco ser de verdade. Os primeiros anos do grupo são anos trágicos na minha vida familiar. A frustração da vida se mesclando à frustração da arte. A dificuldade em continuar a viver era tão grande quanto a dificuldade de continuar a criar. A fome de criar e aprofundar no labor artístico juntou-se à fome de almoçar e não ter um prato de comida à mesa. Era necessário dividir o bife. Era necessário compartilhar a criação. Precisava decidir entre comer e ir atrás de alguma coisa que pudesse trazer a saciedade da fome no dia seguinte. Eu não estava sozinho. Nas duas famílias, era minha a responsabilidade de conseguir o alimento.

Neste lugar, da vida e da arte, da frustração e da realização, descobri um amálgama que não permite a dissolução, e que inefavelmente leva uma à outra. Só é possível estar nesse lugar sendo. O Teatro É! É fundamental ser, e ser completo, com toda a concentração e energia voltada para cada microação, para cada partitura dessa música sinestésica no espaço. Não existe espaço para o fingimento ou o falsear de cada ação. É preciso ser verdadeiro consigo mesmo e com cada atitude sua no mundo, na cena. Para cada gesto, é necessário que o corpo todo esteja presente, ativo. E a intenção parte sempre da base da nossa coluna, e as ações vão se juntando, com cada ligamen, trazendo à tona essa música espacial que é a própria dança de ações do ator. Nesse lugar do eu em vida que é o Teatro, é fundamental compreender que devemos realizar o maior esforço para o menor movimento.

A vida e o Teatro são as próprias dialéticas da dança das oposições em constante atividade, seja no corpo, como nas ações, nas intenções físicas ou psicológicas. Mas como trazer isso à tona? É necessário não pensar. “Para Coração! Não penses…” Ator não pensa. Ator faz. Está na semântica da palavra, na necessidade atual de agir, de deslocar-se e recriar. E nesses 18 anos de grupo, iniciado por uma rebeldia juvenil de não sentir-se acolhido pelo mundo e o Teatro, continuo a buscar nos treinos, ensaios, oficinas, cursos e na relação cotidiana com o universo, essa centelha divina de sentido que ainda não foi encontrada, e que tanto foi perseguida por inúmeros mestres que nunca tive (Artaud, Stanislavsky, Meierhold, Barba, Grotowsky, Fernando Pessoa e tantos outros), mas que dedicaram suas vidas e almas na busca incessante de criar e recriarem para si mesmo um outro lugar, uma outra dimensão. Hoje os músculos já doem com uma constância maior, a desilusão e a preguiça são cada vez inimigas e fronteiras maiores e mais próximas. Preciso revisitar com frequência aquele “moleque atrevido” de 18 anos atrás. Ele é o meu guia, meu guru. Ele, com a sapiência de quem tem fome e precisa sobreviver, me mostra que é necessário continuar, que preciso sair do lugar. É necessário renascer.

Assim, do mesmo modo de quando aconteceu comigo ao completar 18 anos, não houve nenhuma passagem por um portal energético que a tudo transformasse. O Teatro e a vida são uma constante eterna de renovação. As responsabilidades, seja pela fome ou pela escolha, pelo acaso ou consequência, já estavam aqui. Não tivemos tempo para perceber, porque é necessário fazer. Assim, hoje, escolhemos sair da primavera para escolher comemorar a maioridade no outono, porque, como diz a música infantil “As folhas caem, mas tem um motivo: renascer é sempre bom”. E agora, saindo da adolescência, vem a pergunta que te fizeram quando criança: o que você vai ser quando crescer?

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