25out
Poplicado em: 25/10/2018 Comentários: 0

Quando criança ouvia frequentemente (e ainda ouço quase diariamente dentro da minha cabeça) a voz de minha mãe me aconselhando: “Na vida, você possui à sua frente cem caminhos diferentes. Você deve escolher um, e viver a nostalgia dos outros noventa e nove que ficaram para trás”. Na mesma noite em que ouvi isso pela primeira vez, fiquei com a imagem de vários caminhos reais à minha frente: todos eram estradas, trilhas em um chão de terra, gramado ao lado, que eu percorria e pensava como poderiam ser os outros. Passei aquela noite visualizando os diferentes caminhos, indo e voltando mentalmente a eles. Nada havia neles, a não ser um céu ao horizonte e a natureza ao meu lado, como única companheira daquela viagem metafísica, seja qual fosse o caminho escolhido. Minto. Havia dois outros companheiros: o medo, e a vontade de superar o medo. Estes ainda continuam do meu lado.

Continua comigo esse ensinamento da minha mãe, com sua voz reverberando dentro da minha cabeça. Eu tinha por volta de sete ou oito anos de idade, no máximo dez. Não importa. Eu não sabia o que era nostalgia. Mas havia encontrado naquela expressão a palavra mais bonita que já tinha ouvido na vida. Continua sendo a mais bonita. A de significado mais bonito, mesmo quando eu ainda não sabia exatamente o que significava. Perdi minha mãe aos dezesseis anos. Suicídio. Crônica de uma morte anunciada. Eliminada por ela mesma, mas como diria Artaud: suicidada pela sociedade, esta sociedade que não aceita em seus quadros aqueles que não se enquadram em seus moldes. Meses antes havia perdido meu irmão. Uma copa do mundo depois seria meu pai. Sempre que penso na palavra nostalgia, é como se imediatamente pudesse voltar naquele tempo. Nostalgia significava tudo o que vivi e aprendi com minha família. Com meu pai, aprendi o carisma, contar histórias e o apreço pelo movimento artístico e cultural. Com minha mãe, aprendi a ler, escrever e gostar de poesia. Minha mãe Poesia, meu Pai Teatro.

Mas até chegar aos vinte e poucos anos, não sabia o significado de dicionário de Nostalgia. Nunca precisei, nem tive a curiosidade de procurar esse significado. Eu tinha o sentido completo dentro de mim. Mas resolvi então procurar:

NOSTALGIA: (substantivo feminino)

1 – Melancolia profunda causada pelo afastamento da Terra Natal

2 – (Psicologia) Distúrbios comportamentais e/ou sintomas somáticos provocados pelo afastamento do país natal, do seio da família e pelo anseio extremo de a eles retornarem.

Há muito trago o sentimento de não-pertencimento ao lugar onde vivo. Como se de repente tudo o que já tivesse vivido fosse apenas um sonho distante que vive guardado em algum lugar recôndito da memória, que ainda me acompanha, somaticamente, na pele, nos traços, nos desenhos contornados pelas rugas que começam a delinear o rosto, como um mapa desse caminho do caminho percorrido, ou mesmo daqueles caminhos que não percorri. A Nostalgia é a própria arte, o Teatro, a poesia. A Nostalgia é o percurso.

Não sei se escolhemos o caminho, se o caminho nos escolhe, ou se simplesmente ele acontece. Sigo pela terceira via, deixando o fluxo guiar. Estou no caminho artístico, do Teatro. O caminho de transformar a crise em poesia. O país do qual saí para vivenciar novas conexões cênicas também está em crise, social e política. E a opção parece ser a da negação da Arte, da expulsão dos poetas. Os caminhos, que sempre foram paralelos (nunca os mesmos) parecem se distanciar ainda mais. Haverá espaço para voz, poesia e nostalgia? Que espetáculo veremos?

É necessário escolher um caminho e viver a nostalgia dos outros noventa e nove. Adentro um novo processo, distanciando de tudo, mas acolhido por uma nova realidade, por novas possibilidades. Há a natureza, uma estrada de terra, medo e muita vontade de entrar nesse caminho. Mergulhar nesse poço, desligar do que se passa do lado de lá. De um lado a tristeza e o medo. Do outro, do lado de cá, poesia e amor. Fico com a verdade.

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