23out
Poplicado em: 23/10/2018 Comentários: 0

O fazer artístico tem como princípio tirar algo de dentro de si. Trazer à tona, revelar ao mundo externo alguma inquietação, sentimento ou sensação guardada nos mais recônditos de cada alma. Um princípio sartreano até. Náusea. Vomitar. Mas em arte, não é apenas colocar para fora que resolve. Isso e terapia. Em arte, no Teatro, que é a arte de onde falo, há ainda que se tocar muito bem nesse âmago ferido, causador dessa náusea, conhece-lo profundamente, e depois disso, ainda é necessário um labor técnico profundo para tornar essa náusea em banquete, palatável (ou não) aos olhos, ouvidos, tato e toda experiência sensorial do espectador.

O mote dessa experiência do intercâmbio, além de troca de experiências, conhecimento e da criação de conexões cênicas, é principalmente, sair da zona de conforto. Buscar, através do deslocamento físico, artístico, cultural e até mesmo metafísico, colocar-se em situação de perceber e descobrir diferentes percepções e possibilidades. Retomar a poesia escondida, trazer o grão de areia necessário para a produção da pérola.

Encontrando nesse desconforto, e em todos os outros (barreira linguística, cansaço, fuso horário, cama, clima, casa, etc) o conforto de entender-se imigrante sempre. A natureza do artista de Teatro é a do imigrante viajante. Não sente-se em casa em seu país de origem, e também não se sentirá assim em qualquer lugar. O artista de Teatro é um andarilho, proveniente da Ilha Flutuante (a mesma preconizada por Barba), um lugar onde inclusive ele pode conhecer e (re)encontrar os seus grandes mestres, mesmo que estes tenham vivido muitos anos antes.  Mas o mais importante: O nativo desta ilha flutuante chamada Teatro, reconhece de imediato seus compatriotas, e a Torre de Babel desaparece, surgindo aí a linguagem dos atores, que sempre saberão realizar seus diálogos de maneira verdadeira e profunda.

É a partir desse momento que nascem as conexões. Las conexiones…

Nasce também a Poesia. Ela resolve aflorar, junto com a necessidade de se reinventar, e de deixar, mesmo que por um momento, as certezas criadas há tanto tempo, as fórmulas, a casa, a família, a comida e o calor, aqueles trabalhos todos que lhe renderiam um bom cachê, para aprofundar-se em si mesmo e naquilo que você acredita. O mundo está em crise. Somos a eterna crise.

Há minha frente há uma forte névoa, fria. Mas posso ver nas silhuetas, uma linda paisagem que se desenha enquanto o Sol timidamente se desabrocha.

Compartilhar